segunda-feira, 28 de março de 2011

Fabrício Carpinejar apud Milla Monteiro


"Perderei o tempo de sua risada.
A dor será uma amizade fiel e estranha.
Não perceberei seus quilos a mais, seus quilos a menos, sua vontade de nadar na cama ao se espreguiçar.
Vou cumprimentá-lo com as sobrancelhas e não terei apetite para dizer coisa alguma.
Não olharei para trás, para não prometer a volta.
Não olharei para os lados, para não ameaçá-lo com a dúvida.
Adeus, meu amor, a vida não nos pretende eternos.
Haverá a sensação de residir numa cidade extinta, de cuidar dos escombros para levantar a nova casa.
Adeus, meu amor.
Não faremos mais briga em supermercado, nem festa ao comprar um livro.
Não puxaremos assunto com os garçons.
Não receberemos elogios de estranhos sobre nossas afinidades.
Não tocaremos os pés de madrugada.
Não tocaremos os braços nos filmes.
Não trocaremos de lado ao acordar.
Não dividiremos o jornal em cadernos.
Não olharemos as vitrines em busca de presentes.
O celular permanecerá desligado.
Nunca descobriremos ao certo o que nos impediu, quem desistiu primeiro, quem não teve paciência de compreender.
Só os ossos têm paciência, meu amor, não a carne, com ânsias de se completar.
Não encontrará vestígios de minha passagem no futuro.
Abandonará de repente meu telefone.
Na primeira recaída, procurará o número na agenda. Não estava em sua agenda. Não se anota amores na agenda.
Na segunda recaída, perguntará o que faço aos conhecidos.
As demais recaídas serão como soluços depois de tomar muita água.
Adeus, meu amor.
Terá filhos com outras mulheres.
Terá insônia com outras mulheres.
Desviará de assunto ao escutar meu nome.
Adeus, meu amor."

Um comentário:

  1. "É que o amor é essencialmente perecível e na hora que nasce começa a morrer. Só os começos são bons.
    Há então um delírio, um entusiasmo, um bocadinho do céu.
    Mas depois ...
    ... seria, pois necessário estar sempre a começar, para poder sempre sentir?"

    RAQUEL DE QUEIROZ

    - Lembrei disso (;

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